16 de maio de 2010

Perfect look

14 de maio de 2010

Reflexão de um ex-aluno meu sobre a necessidade de parar

Sim, fico babada e também é por isso que ponho isto aqui. Mas não só. Acredito mesmo que ter gente de 20 anos (e ateia!) a questionar as coisas desta maneira é um luxo. E o mundo de hoje, o tal de que ele fala, tem pouco destes luxos.

«(...) Parar é pecado no mundo em que vivemos. E parar é essencial a pensar, pensar só se consegue em silêncio e o silêncio é, por si, um momento de pausa. Não me refiro a alguém que se fecha sozinho num quarto escuro, embora esse seja um método válido. Falo sim da capacidade de olhar para dentro, de tentar aquilo que a Zara chamou de profundidade interior. Eu sinto falta disso, do silêncio.
Já repararam como as pessoas (e até as coisas) são barulhentas? Há no correr dos dias uma algazarra enorme! A tal ponto que se alguém pára ouve-se:
- Aquele é um incompetente, não sabe o que quer, está parado
e eu pergunto
- É mau não saber o que se quer?
e penso na imagem do filósofo que a (professora) Joana me deu na segunda aula do décimo ano: o filósofo é o homem que está no comboio e puxa a alavanca de emergência para pensar no motivo de estar em movimento
-É mau não saber o que se quer?
e ouço, por outras palavras,
-Olha que ninguém espera por ele!
e é verdade, ninguém espera por ele, ninguém espera pelos que perdem tempo a pensar no que querem: não são úteis, não são produtivos. Seguimos uma regra de produtividade sem lei (quão irónico não é isto...). Os gestores tomam opções de curto prazo que colocam em causa a saúde financeira da empresa, tudo porque os seus prémios são atribuídos consoante os resultados que apresentarem no fim do ano. As pessoas tomam opções de curto prazo porque os prémios são os de curto prazo. Tamanha miopia só pode ser perdoada a quem não quer ver e, hoje em dia, ver implica perder muito tempo.»

(texto completo no blog do Tomaz, A textura das palavras)

13 de maio de 2010

Emigração ética?

Não sei se concordo com a análise, mas este texto da Clara Ferreira Alvez é importante para nos fazer pensar.

«Os homens europeus descem sobre Marrocos com a missão de recrutar mulheres.
Nas cidades, vilas e aldeias é afixado o convite e as mulheres apresentam-se no local da selecção.
Inscrevem-se, são chamadas e inspeccionadas como cavalos ou gado nas feiras. Peso, altura, medidas, dentes e cabelo, e qualidades genéricas como força, balanço, resistência. São escolhidas a dedo, porque são muitas concorrentes para poucas vagas. Mais ou menos cinco mil são apuradas em vinte e cinco mil. A selecção é impiedosa e enquanto as escolhidas respiram de alívio, as recusadas choram e arrepelam-se e queixam-se da vida. Uma foi recusada porque era muito alta e muito larga.
São todas jovens, com menos de 40 anos e com filhos pequenos. Se tiverem mais de 50 anos são
demasiado velhas e se não tiverem filhos são demasiado perigosas. As mulheres escolhidas são
embarcadas e descem por sua vez sobre o Sul de Espanha, para a apanha de morangos. É uma
actividade pesada, muitas horas de labuta para um salário diário de 35 euros. As mulheres têm casa e comida, e trabalham de sol a sol. É assim durante meses, seis meses máximo, ao abrigo do que a Europa farta e saciada que vimos reunida em Lisboa chama Programa de Trabalhadores Convidados. São convidadas apenas as mulheres novas com filhos pequenos, porque essas, por causa dos filhos, não fugirão nem tentarão ficar na Europa. As estufas de morangos de Huelva e Almería, em Espanha, escolheram-nas porque elas são prisioneiras e reféns da família que deixaram para trás. Na Espanha socialista, este programa de recrutamento tão imaginativo, que faz lembrar as pesagens e apreciações a olho dos atributos físicos dos escravos africanos no tempo da escravatura, olhos, cabelos, dentes, unhas, toca a trabalhar, quem dá mais, é considerado pioneiro e chamam-lhe programa de "emigração ética".
(...) Os homens são os empregadores. Dantes, os homens eram contratados para este trabalho. Eram tão poucos os que regressavam a África e tantos os que ficavam sem papéis na Europa que alguém se lembrou deste truque de recrutar mulheres para a apanha do morango. Com menos de 40 anos e filhos pequenos.
(...) Para os marroquinos, árabes ou berberes, a selecção e a separação são ofensivas, e engolem a raiva em silêncio. Da Europa, e de Espanha, nem bom vento nem bom casamento. A separação faz com que muitas mulheres encontrem no regresso uma rival nos amores do marido.
(...) Que esta história se passe no século XXI e que achemos isto normal, nós europeus, é que parece pouco saudável. A Europa, ou os burocratas europeus que vimos nos Jerónimos tratados como animais de luxo,com os seus carrões de vidros fumados, os seus motoristas, as suas secretárias, os seus conselheiros e assessores, as suas legiões de servos, mais os banquetes e concertos, interlúdios e viagens, cartões decrédito e milhas de passageiros frequentes, perdeu, perderam, a vergonha e a ética. Quem trata assim as mulheres dos outros jamais trataria assim as suas.
(...) Damos às mulheres "uma oportunidade", dizem eles. E quem se preocupa com os filhos?Gostariam os europeus de separar os filhos deles das mães durante seis meses? Recrutariam os europeus mães dinamarquesas ou suecas, alemãs ou inglesas, portuguesas ou espanholas, para irem durante seis meses apanhar morango? Não.»

12 de maio de 2010

Um encontro centrado no diálogo e na beleza

Tive o privilégio de estar presente hoje no encontro do Papa no CCB, com representantes do mundo da cultura. Foi um momento bonito de diálogo, e devo dizer que estou a gostar da humildade do Papa nesta visita, em que se coloca numa posição de abertura, numa atitude mais acolhedora da diversidade que enriquece o mundo actual e mais capaz de assumir as culpas da Igreja (nomadamente quanto ao escândalo recente da pedofilia), sem cair na armadilha do auto-vitimismo. (aliás, aconselho o recente artigo do António Marujo sobre isto)

"Há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo (...) A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade. (...) De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai.
(...) A Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza."

Aqui estão comentários de alguns dos presentes.

6 de maio de 2010

Feira do livro

Ontem aprendi duas coisas:

1) que chegar aos 120 euros em livros é fácil demais

2) que graças ao projecto do corredor verde do Ribeiro Telles, que depois de 30 anos da sua concepção foi finalmente concretizado pelo Sá Fernandes, posso ir a pé (eventualmente a correr, com a prática) da minha casa (perto do Marquês de Pombal) a Monsanto, sempre em jardins ou pistas cicláveis. Um espectáculo!

1 de maio de 2010

Sobre o PEC

Para percebermos melhor os desafios e riscos do PEC, eis o texto que oportunamente preparou o Gruto de Trabalho Economia e Sociedade, da CNJP. A ler com atenção redobrada.

26 de abril de 2010

Eu na rádio, numa entrevista sobre a liberdade

Aqui, entrevista entre 16’25’’ e 40’25’’.

25 de abril de 2010

Querido aluno que estás há uma semana a preparar-te para festejar o 25 de Abril

Como explicar-te as decepções que tenho tido?

Como poder dizer-te que já não desço a avenida, sem arriscar queimar-te etapas que têm de ser percorridas - que deveriam ser percorridas por todos?

Gosto dos teus cartazes do MFA e tenho efectivamente aqui em casa aquele da Vieira da Silva que diz que a poesia está na rua. E acredito que esteve, e comovo-me a ver a alegria das pessoas naquele belíssimo documentário do Sérgio Tréfaut (que te aconselho: "Outro país"), ou as imagens do povo todo a descer a rua, aquelas célebres imagens que passam repetidamente nas reportagens.


Mas também é verdade que ontem no Largo do Carmo, onde passei por mero acaso, estavam as mesmas barraquinhas de todos os anos e os mesmo slogans e um homem a cantar "uma gaivota voava, voava" - e eu, querido aluno, já não suporto isto.

Como explicar-te que é retórica?

Que partilho contigo os ideais, mas estou farta de toda a conversa da esquerda, e dos vícios e da pequenez e da falta de meritocracia, e da repetição saudosista, e das palas nos olhos e do vitimismo e da demonização dos outros?

Não, é melhor não te dizer estas coisas.

Desce a avenida, sim, e até podes ir para a cidade universitária no primeiro de Maio. E, sobretudo, envolve-te, conhece o mundo do associativismo de esquerda por dentro. Faz isso tudo. E daqui a 10 anos falamos.

24 de abril de 2010

Erosão

Em dias como este, acho que estou a ficar velha porque dantes o convívio com os jovens dava-me um sentido de pertença e agora dá-me um sentido de exclusão.
E disse-me aquele amigo ontem a frase genial que leu não sei onde: o problema da juventude é que é desperdiçada nos jovens.

22 de abril de 2010

Breve caracterização de um flirt púdico

Ao contrário do se pensa, flirtar não é uma actividade exclusivamente romântica. Nem só as pessoas que pretendem atingir um nível considerável de intimidade física flirtam. Qualquer pessoa que queira ser apreciada e aceite num âmbito onde lhe falta alguma coisa (amizade, amor, trabalho), flirta, isto é, seduz e deixa-se seduzir com gosto.
Flirtar é falar de coisas banais, olhando-se nos olhos de forma ambígua, e sentir que foi tudo muito profundo. É passar subrepticiamente do cenário real onde nos encontramos para um cenário alternativo, de cores mais vivas e sensações mais cruzadas e presentes. E sentir magia, mesmo num parque de estacionamento.
Os amigos recentes flirtam, os vizinhos flirtam, os colegas de trabalho flirtam. Têm momentos fugazes em que sentiram que estavam a viver um segredo (mesmo à luz do dia) e que só o outro (o parceiro do flirt) é que percebe exactamente o que aqueles 20 segundos significaram.
A idade é irrelevante, as diferenças de idade também, e, surpreendentemente, embora seja mais habitual que os dois sujeitos do flirt sejam de sexos diferentes (ou reciprocamente atractivos, para não excluir ninguém), nem isso é imprescindível. Duas amigas que acabaram de se conhecer e desejam imenso agradar uma à outra para encontrarem a confidente ideal, flirtam. Há que admiti-lo.
Claro que nem sempre estamos numa de flirtar, claro, e nem com toda a gente. É preciso estar na mesma disposição, ao mesmo tempo, na mesma altura. O que, na verdade, nem sempre acontece, mas também não é assim tão difícil. E quando começa o flirt, nem é preciso gostar das mesmas piadas e ter a mesma agilidade cognitiva: porque quando flirtamos, ficamos todos muito mais susceptíveis e qualquer boca fácil se torna irresistível.
É digno de nota que flirtar implica uma intimidade inesperada, por isso velhos amigos não flirtam. Em geral. Mas, pelo contrário, breves flirts podem evoluir para se tornarem bons amigos.
Ou não. Também podem desaparecer como todas as coisas breves. E voltar só a ser colegas de trabalho.
Permanecerá a sensação incómoda de que aquele momento com aquela conversa sob aquela luz ténue foi especial e se perdeu. Até ao dia em que parecerá só pateta.
E então está definitivamente na altura de arranjar outro flirt.

18 de abril de 2010

Carta aberta aos bispos de todo o mundo

A não perder esta belíssima e corajosa carta aberta de Hans Küng, teólogo contemporâneo de Joseph Ratzinger, que com ele esteve presente no Concílio Vaticano II e que agora classifica o seu pontificado como o das "oportunidades desperdiçadas": aqui.

17 de abril de 2010

Divagações sobre a minha descrença



Não consigo deixar de sentir esta convicção de que Deus não brinca e não é incoerente. Deus não me teria dado a Razão para depois exigir que eu abdique totalmente dela quando me quero relacionar com Ele. Por isso sou considerada descrente. Porque questiono a lógica da fé e da confiança, quando me parece irracional.

A história de rezar para pedir coisas boas, por exemplo. Não é lógico não culpabilizar Deus pelas coisas más e depois achar que é Ele o responsável pelas coisas boas. Se Deus interviesse na minha vida desta forma (pede e ser-te-á dado), o que é que aconteceu no caso do meu amigo Ricki que está com um cancro em fase terminal no hospital, com 35 anos e reduzido a 50 kilos?
Ninguém quer achar que Deus tem alguma culpa disso, e eu percebo, mas então também não é d'Ele a responsabilidade de me dar aquilo que eu lhe peço nas orações. Ou é responsável por tudo (bom e mau) ou não é responsável por nada. Se não, não era Deus, era um Macgyver que às vezes consegue ser bem sucedido nas suas tentativas de salvar o mundo, e outras não.
E isto aplica-se também aos milagres, naturalmente.
Ontem estive a falar destas coisas com uns amigos meus que são todos new age e acreditam na Energia e no Universo como entidade que nos dá tudo aquilo de que precisamos, basta confiar. Tudo começou com um episódio impressionante que aconteceu quando eu estava a chegar de carro com uma amiga a quem eu estava a dar uma boleia. Eu queria estacionar o carro num lugar que vi e que ficava a uns 100 ou 200 metros da porta da casa para onde nos dirigíamos. O contexto era o centro de Lisboa, com o habitual caos para estacionar, naturalmente. Ela, que tem uma deficiência grave e muitas dificuldades de mobilidade, disse que não, para eu continuar a aproximar-me da porta e confiar no Universo, que haveriamos de encontrar um lugar mais adequado às nossas necessidades. E pimba, incrível mas é verdade, estava um lugar à nossa espera mesmo à porta. Este episódio deu logo o mote para montes de conversas ao longo do serão, sobre a minha "descrença" no universo, que me impede de estar receptiva às coisas boas da vida. Mas, lá está, eu não consigo simplesmente suspender o meu lado racional.

Isto de as coisas boas dependerem da crença de que vão acontecer para acontecerem, é de tal forma anti-científico e placébico que eu sinto-me regressada aos tempos mitológicos se pensar assim. Acredita, e o Universo dar-te-á aquilo que lhe pedires (ou aquilo de que precisas). Se não to der, podemos sempre alegar que 1) não acreditaste o suficiente; ou 2) que aquilo que estavas a pedir não era aquilo de que realmente precisavas e o universo, que é mais inteligente do que tu, optou por te dar as coisas certas. É como a astrologia: bate sempre certo! Retire-se a palavra "universo" desta frase e ponha-se a palavra "Deus", e vemos que o raciocínio das pessoas que têm "muita fé" é exactamente o mesmo.

Isto é conversa de charlatão. Não consigo aderir a isto, e o meu amigo Ricki, que é das pessoas mais positivas e entusiastas da vida que eu alguma vez conheci, e que neste momento está morrer cheio de sofrimento no hospital, confirma a minha suspeita.
Dizer "não há coincidências", "nada acontece por acaso", é negar a evidência. É utilizar os casos que confirmam esta tese (tipo o lugar de estacionamento de ontem) e ignorar todos os outros, o terramoto no Haiti, os judeus da 2ª guerra mundial, o cancro do Ricki. Ou então, pior ainda, querer convencer-nos que as vítimas desta História global em que estamos inseridos, também estão a realizar o seu papel, que o sentido de tudo isto nos escapa mas existe, e que o sofrimento deles era de alguma forma necessário para a harmonia do todo. Porra. Isso ainda é mais revoltante. Como se Deus (ou o Universo) instrumentalizasse as pessoas assim. Como nos casos em que escapamos ilesos a um acidente em que 5 outras pessoas morreram, e dizemos que Deus estava do nosso lado. Que o Universo conspirou a nosso favor. E os outros? São filhos bastardos do Universo? São os menos preferidos de Deus? Não, são os tais que precisam de sofrer para a harmonia do todo, aqueles que, numa tela gigante, têm o papel de sombras.

É muito mais agradável andar pela vida a achar que temos anjos da guarda ao nosso lado (ou forças cósmicas e energia com esse mesmo papel). Mas eu sinto interiormente esta forte convicção de que isso é regressar aos Lusíadas (que já na altura eram assumidamente ficção) e achar que somos marionetas nesta estória em que se faz de nós o que se quiser, em que os deuses ajudam uns e não outros porque lhes apeteceu.

E, repito, se houver um deus que me criou e me ama, Ele não me teria dado esta racionalidade insistente para depois exigir de mim que a ignore nos assuntos da fé. Claro que é pela Fé que eu posso acreditar que Ele existe. Mas depois, o caminho da fé não pode ser contraditório com as luzes da Razão.